Perguntas importantes que podemos nos fazer – guiadas por Clarissa Pinkola Estés

Perguntas importantes que podemos nos fazer – guiadas por Clarissa Pinkola Estés

Clarissa Pinkola Estés é uma mulher criada na floresta, entre histórias e costumes místicos. É analista junguiana, com doutorado em etno clínica feito com ênfase no estudo das tribos.  A escritora faz o seu trabalho de análise através de histórias como contos de fadas, pois eles exprimem arquétipos que permeiam o paciente de um modo que ela diz ser único.

Em seu livro Mulheres Que Correm Com os Lobos, ela analisa os arquétipos de alguns contos de fadas para que a mulher, vetada e moldada na sociedade desde tempos remotos, consiga resgatar essa parte de si deixada para trás. Essa parte diz respeito principalmente à confiança na própria intuição, no próprio talento, e na importância de se investir no autoconhecimento.

Há muito preparo uma lista com os arquétipos que ela retrata no livro (está demorando, mas vai sair!). Hoje, porém, queria trazer pra vocês alguns questionamentos levantados no decorrer da leitura. Essas perguntas estão lá escritas, mas eu as reorganizei para que ficassem contextualizadas aqui.

Vale dizer que Clarissa não separa a visão psicológica da visão espiritual. Ela apresenta fundamentos teóricos concisos e mescla com os seus conhecimentos de tribo. Isso acontece porque a bruxaria também lida com a força das memórias coletivas, trabalhando arquétipos em seus rituais e usando o autoconhecimento como uma de suas principais características. Mas você não precisa acreditar ou seguir alguma coisa para elevar o seu poder de intuição e de reflexão sobre as coisas.

É para isso que essas perguntas servem. E já adianto que tudo aqui está escrito da forma como eu entendi. É um livro que pode ser interpretado de diversas formas. 


Rio abajo rio – Espaço entre mundos

A escritora também chama de igreja embaixo da igreja, de Nod, onde habitam os seres da névoa. É um lugar obscuro, no sentido de que ele não está iluminado pelos nossos olhares corriqueiros. É como um baú em um porão. Dentro dele há todas as suas memórias, todas as impressões dessas memórias, todos os aprendizados causados pelas memórias, todas as verdades que essas memórias dizem para você.

Pode ser que existam coisas que você sabe, mas não quer saber. Pode ser também que você saiba de coisas sem saber que sabe, e por isso ignore os seus impulsos. Você resolve ir a algum lugar e alguma coisa diz para que não vá. Mas por que você deveria prestar atenção a essa sensação, se ela se mostra infundada e sem explicações? Pode ser por alguma coisa que esteja no rio abaixo do rio.

Não confunda!

Devemos também considerar o perigo de seguir tais impulsos, e é por isso que eu não tenho mais falado sobre essas coisas aqui. Existem pessoas que têm problemas de ansiedade e fobias de diversos tipos. Por conta disso elas podem sentir impulsos contrários às coisas que realmente desejam. O ansioso, por exemplo, pode ter o impulso de não aceitar um emprego por pensar em todas as coisas que darão errado, ou de terminar uma relação pela preocupação com situações hipotéticas. Alguém com fobia social pode ter vários tipos de pressentimentos ruins causados pela própria fobia do contato. Isso NÃO É uma intuição. E é por isso que se deve trabalhar muito o autoconhecimento antes de aceitar a sua intuição como a sua guia. Eu tenho ansiedade e aprendi com muito custo a diferenciar uma coisa da outra.

Para Clarissa as perguntas são as chaves, é a partir de perguntas sinceras voltadas para determinados assuntos que você pode acessar as riquezas desse lugar.


Primeiras perguntas

Para Clarissa Pinkola Estés, as perguntas são as chaves que abrem as portas.
Fotografia: Tem Visita
Para Clarissa Pinkola Estés, as perguntas são as chaves que abrem as portas. 


O que há atrás da porta?

O que não é como aparenta ser?

O que eu sei, no fundo de mim mesma, que preferia não saber?

Devo ir para esse lado ou para o outro?

Devo resistir ou ser flexível?

Devo fugir disso ou ir nessa direção?

Essa pessoa, esse acontecimento, essa empreitada, é verdadeira ou falsa?


Vida-morte-vida

O ciclo da vida-morte-vida é uma grande dificuldade para nós. Quando me perguntam qual foi a primeira coisa que aprendi sobre misticismo, essa é a primeira coisa que me vem a cabeça. Deve ser porque é  um aspecto da vida extremamente necessário, mesmo para a nossa vida emocional.

As estações do ano são os retratos mais óbvios do processo cíclico da vida. Alguns povos antigos olhavam atentamente o clima e a mudança da natureza por viverem da colheita, eles ajustavam todos os eventos da sua vida (inclusive gravidez e casamento) para que esses eventos andassem de acordo com o que estava acontecendo na terra. Eles sabiam, por exemplo, que uma criança nascida no inverno tinha a previsão de morte. Se não morresse de frio, cresceria fraca. Eles sabiam que na primavera os bichos se desentocavam aos poucos, que mesmo que algumas plantas ainda estivessem em seu estado frágil, não deixavam possuir um potencial, pois a primavera pode demorar um pouco para tirar as coisas do seu estado de imobilidade.

Eles sabiam que no inverno não há colheita. Eles sabiam que para plantar se precisa, antes, de preparo. Eles sabiam que para colher é preciso plantar. Eles sabiam sobre a necessidade de separar as sementes saudáveis daquelas que não germinariam. O mais importante para nós aqui: eles sabiam armazenar e esperar, porque não há colheita que dure para sempre.

Agora a maioria de nós vive nas cidades, e pode ser que já não se ligue muito para o estado das coisas conforme as estações. Mas não é porque você não planta o que come, que não estará plantando outras coisas que precisam de certas disposições para que cresçam ou vigorem.

Existe a parte que vem quando a colheita cessa. É uma parte muito natural, mesmo  da felicidade, com a qual as pessoas não sabem lidar. Existe também um lado obscuro das coisas que amamos, um lado que não queremos ver, por não ser ou estar do nosso agrado, ou porque através desse lado a própria natureza da coisa se revele. E aqui iremos chamar a tudo isso de morte.

O que morre dá espaço ao que nasce.  E não estamos aqui falando de trocar uma coisa pela outra, embora também possa acontecer.  Mas existem renovações inesperadas que, por serem inesperadas, podem parecer feias ou ruins. Quando alguma expectativa se quebra, por exemplo, alguma coisa morre. Mas então a outra coisa desconhecida vive. Deve-se saber dar a morte a uma e a vida a outra.

O que vai embora, muitas vezes, precisa ir embora. Com o tempo, se aprende não apenas a aceitação, mas o comando de despedida. Às vezes também temos medo de dar a morte às coisas nas quais residem nossa estabilidade, mas que, embora nos deixem estáveis, não nos deixam alegres.


Perguntas decisivas

Precisamos olhar os lugares escuro e os espaços vazios com intenção de encontrar a paz.
Fotografia: Tem Visita

Ao que preciso dar mais morte hoje, para gerar mais vida?

O que precisa morrer em mim para que eu possa amar?

Qual é a não beleza que eu temo?

Qual utilidade pode ter para mim hoje o não belo?

O que deveria morrer?

O que deveria viver?

A qual vida tenho medo de dar a luz? 

Se não for agora, quando?


Acho que consegui responder a alguns dos pedidos de vocês me organizando a partir dessas expressões do livro. Continuem acompanhando o blog, se inscrevam <3.

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Um beijo!

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