Os Passos Em Volta, Herberto Helder

Os Passos Em Volta, Herberto Helder

Foto autoral Tem visita

Me dei este livro de presente há alguns anos e, lidos os primeiros dois contos, achei confuso e abandonei a leitura.

Os passos em volta é o único livro em prosa de Herberto Helder, poeta português.  Falando com um professor sobre poesia em prosa, resolvi tirar o livro da prateleira e conferir  se esse era o caso daqueles textos – e se por isso eu os havia achado tão confusos.

“Não são contos. Têm a qualidade dos poemas e o desenho retilíneo da prosa.”

Eucanaã Ferraz

Alexandra Lopez da Cunha, em um artigo sobre a poética do autor na obra (Os passos em volta, a poética dos contos de Herberto Helder), usa o termo “narrativas curtas”, o que as denomina fielmente.

 

 


Metalinguagem

As cidades ardem, os campos enlouquece. Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não deixa. Às vezes lamenta-se: Sinto-me como se estivesse percorrido o deserto; não sei nada.

Holanda, pg. 19-20

Estilo, o primeiro conto, perpassa todos os outros. Introduzindo o sentimento de desordem da vida, a personagem conta como lida com essa desordem – através do seu estilo: unidades de significações mentais que dão conta da “vida como um acontecimento excessivo” e são reduzidas a tópicos comuns “suponhamos, do Amor ou da Morte”.

Herberto Helder descreve nesse conto uma das características principais de sua narrativa: o peso de seu caráter simbólico.

Esse não é o único conto que aborda explicitamente o tema do fazer artístico, principalmente no que diz relação à poesia. Holanda tem como personagem principal um poeta que parece estar no começo de seu ofício, mais tarde parece ser contraposto por Brandy, não apenas pelo uso de imagens, mas pela posição oposta em que estão as personagens.

 Tudo estava cheio, porque o meu coração ávido tudo recebia: era um espaço palpitantemente vazio. Agora não, agora estou cheio de pessoas, lugares, acontecimentos, ideias e decisões. E tudo me parece deserto. […] Que angustiosa, esta voracidade, esta fusão analfabeta com a instável matéria do mundo! Agora sou inteligente. Existo, existe o universo.

Brandy, p. 159-160

Em Teoria das cores, há um pintor que reflete sobre sua fidelidade de representação. Outros dois contos abordam o tema de um modo desvelado desde os seus títulos: Vida e obra de um poetaPoeta obscuro. No primeiro, a personagem conta como começou a escrever, descreve alguns processos de ressignificação de  elementos a sua volta na época em que levava uma vida marginalizada.  O segundo traz uma narrativa que aproxima o leitor do próprio processo criativo da personagem, que parece estar escrevendo o poema enquanto narra o conto, que possui um caráter mais abstrato.

O escritor joga com a linguagem de modo a fazer parecer que ele está o tempo todo falando sobre esse tema de criação, mesmo quando o tema explícito do conto é outro. Teorema, por exemplo, narra a execução de um dos assassinos de Inês de Castro. Essa narrativa está cheia de elementos que estão em desacordo na perspectiva histórica, e o mais gritante é que a execução é narrada pelo próprio assassino, que continua a narrar mesmo depois de morto.Ele muda a lógica das coisas explorando uma possibilidade que é permitida pela linguagem. A personagem, mesmo depois da execução, aparenta um orgulho pretensioso que parece vir do valor de eternidade que ela confere a morte:

E eu também irei crescendo minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu meu coração. D. Inês tomou conta de nossas almas. Liberta-se do casulo carnal, transforma-se em luz, em labareda, em nascente viva. Entra nas vozes, nos lugares. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do inferno havemos de ficar os três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração em geração.

p. 112


O ser no mundo

 

Ela  já fora posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida e brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor.

Polícia pg. 31

As personagens aparecem quase sempre em uma situação de estranheza com o espaço, olhando para o mundo com distanciamento. Em meio às narrativas, nos deparamos com diversas imagens que são das cidades, da relação da personagem com a cidade e a relação da personagem com o mundo externo: bares, quartos de pensão, arquitetura, ruas, prostitutas, vistas das janelas, etc. Percebe-se claramente que as imagens não são narradas para servir ao leitor, como, por exemplo, um elemento de enredo ou espaço,  mas servem para recriar o estado interior da própria personagem. Através das descrições das cidades é que sabemos como está esta pessoa que vaga. Mesmo quando se fala praticamente só do exterior, o foco principal é o “eu”.

Herberto Helder cria esse ser como sendo sempre um estrangeiro. Alguns contos possuem mesmo essa temática, como Descobrimento, Policia e Comboios que vão para Antuérpia. Outros, porém, como Escadas e Metafísica e Doenças de pele, trazem a sensação de um estrangeirismo familiar.

Lugar lugares é um caso peculiar, uma narrativa angustiante que causa essa sensação desesperada e imediata  no próprio leitor:

Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.  […] As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa noite, boa noite. E depois amavam-se depressa e lavavam-se e diziam: boa noite, boa noite.

pg. 53


Livro aberto Herberto Helder em mesa de café
Foto autoral Tem Visita

A volta 360

Mesmo sem uma linearidade entre si, os contos parecem estar conectados. Embora existam alguns objetos que se repetem (como peixe, o deserto, etc), isso quase não se percebe.  Essa sensação talvez se dê pela predominância dos tais “tópicos comuns”. A presença da solidão, do fazer poético e artístico, de um olhar distanciado para o mundo, da luta entre o querer relação com esse mundo e o não querer, da imoralidade contra a moralidade, acabam mesmo por se resumir em tópicos comuns como do Amor ou da Morte.

Ainda assim, as narrativas se mantêm bem diferentes umas das outras. Algumas nos impactam por períodos curtos com palavras ásperas ou muito significativas. Outras são capazes de fazer com que fiquemos perdidos em meio a tanta abstração. Alguns contos se aproximam muito da prosa poética, investindo até mesmo em recursos sonoros bastante óbvios como rimas.

O nome Os passos em volta pode ser interpretado de diversas formas. Quando comprei o livro pensei em “passos em volta de alguma coisa”. No decorrer da leitura, pensei no aspecto andarilho das personagens por diversos lugares citados (Holanda, Antuérpia, Bruxelas, Lisboa, Alemanha). O último conto chama-se Trezentos e sessenta graus, trazendo a ideia circular e uma narrativa em que o personagem está de volta à casa dos pais. Creio nesse nome em todos os seus sentidos.

A passagem do tempo é evidente principalmente nos contos O quarto, em que um neto sente repulsa diante da velhice da avó no leito da morte, Doenças de pele, em que acompanhamos o tempo passar através de suas nódoas que crescem, e Trezentos e sessenta graus, em que há também  uma espécie de repulsa pela velhice. Nesse último conto existem passagens que serão novamente essencialmente metalinguísticos, semelhantes ao primeiro conto Estilo.

O sentimento, de que esta imagem é a projecção fantástica e invertida, alimenta uma alma num ponto qualquer do mundo. A cabeça do homem parado frente à estação de caminho de ferro enche-se com as novas metáforas […]. A casa é como uma escrita onde as palavras se motivam e desenvolvem por si próprias e as metáforas se geram como animadas extensões da carne, do sangue.

O livro de Herberto Helder é sim uma volta circular, abordando assim o homem e sua vida, o poeta e sua escrita e as voltas da própria linguagem.


Espero que tenham gostado, e se lembrem que estou sempre lá no instagram! 🙂

(O meu livro é da editora Tinta da China, coleção dos Grandes Escritores Portugueses, publicado em 2016.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1963.)

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