Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

virginia woolf mrs dalloway cosac naify


Fazia muito tempo que não postava aqui no blog, mas esse livro é um dos que merecem um cantinho a mais! Quem me conhece sabe que eu sou a doida da Virginia Woolf, e foi com essa obra, Mrs. Dalloway, que comecei a conhecer as obras dela.

Ela consegue reproduzir aqueles pensamentos e sensações que, quando percebemos e tentamos racionalizar, se modificam ou se perdem por completo. Através do que ela escreve, vemos a raiz desses pensamentos e como eles se transformam outra coisa ao longo do texto, conforme a personagem vai racionalizando aquele impulso inicial.

Não andava nada bem, contou Hugh, com uma espécie de contrariedade ou irritação em seu belo corpo agasalhado, viril, impecavelmente trajado, insinuando que a esposa sofria de uma indisposição, nada de muito grave, algo que Clarissa Dalloway, como velha amiga, entenderia perfeitamente sem que tivesse de entrar em detalhes. Ah, claro, claro que entendia; que desagradável; e sentiu-se muito solidária e, ao mesmo tempo, estranhamente consciente de seu próprio chapéu.

Quem é Mrs. Dalloway? Ora, é a mulher de Richard Dalloway. É nisso que se baseia grande parte do romance. Um dia na vida de mulheres que têm suas próprias histórias e pensamentos, mas que no final das contas são apenas as esposas de alguém.

É realmente muito difícil falar desse livro, pois cada mínima parte dele é importante, tanto para o enredo quanto para uma análise mais “técnica”. Então, hoje, eu vou falar de um modo em que vocês saibam apenas do que se trata a história em si, para buscá-la com mais profundidade depois. Para não ficar tentando descrever o modo como ela escreve, coloquei trechos gigantes. Alguns deles são os meus preferidos!

. . .

Clarissa Dalloway

Clarissa Dalloway é a personagem principal. Ela dará uma festa à noite, e passa o dia ocupada com os preparativos. Mora com o marido, Richard, com a filha, e com as empregadas. É uma família aristocrata. Podemos ver isso mesmo em alguns pensamentos de Clarissa, que às vezes se tornam moralistas.

O passado da personagem é apresentado aos poucos. Apesar de existir um tempo muito presente, marcado até mesmo pelas badaladas do Big Ben, existe também um tempo psicológico que nos dá acesso a esse passado.  As recordações mais recorrentes de Clarissa são em Bourton, em uma casa onde passou as férias quando era jovem. Lá, estão as personagens Peter e Sally – pessoas com quem ela não fala há anos, mas que estão sempre presentes nas suas impressões sobre o mundo.

Peter é um ex namorado, alguém com quem ela possuía conexão muito forte e, ao mesmo tempo, sentia-se incomodada. Era como se ele passasse o tempo inteiro julgando Clarissa de algum modo. Esse julgamento persiste mesmo depois de tantos anos, quando ela age de determinada forma imaginando que ele teria determinado pensamento sobre ela.

Apesar disso, as críticas de Peter não tinham um caráter moralista. Ela era uma mulher muito polida, tentando sempre provar coisas para os outros, esforçando-se para ser aquilo que se espera de uma mulher. O julgamento dele recaía sobre ela justamente quando ela agia desse modo. Era como se ele fosse apaixonado pela parte dela a qual os “bons modos” não moldavam, mas rejeitasse suas outras partes de uma forma prepotente.

Mas Peter – por mais belo que fosse o dia, e as árvores e a relva, e a menininha de rosa -, Peter jamais se dava conta. […] Tudo o que lhe interessava era a situação mundial; Wagner, a poesia de Pope e, sempre, o caráter nos outros e, nela, os defeitos da alma. Como a repreendia! Como discutiam! Ela iria se casar com um Primeiro-Ministro e se postar no topo de uma escadaria; ele a chamara de a perfeita anfitriã (e como ela havia chorado no quarto por causa disso), tinha tudo para ser uma anfitriã perfeita, foi o que ele disse.

Além de Peter, outra personagem com quem Clarissa estabelecia uma relação muito forte, é Sally. Sally era uma jovem nada polida, que quebrava alguns padrões femininos e possuía um espírito livre. Clarissa  chega a ser apaixonada por Sally, alguém com quem ela sentia que dividia um companheirismo fora do normal.

Era isto o que sentia – o mesmo que Otelo, e era o que sentia, estava certa, com tanta intensidade quanto Shakespeare queria que Otelo sentisse, e tudo porque estava de branco, descendo para jantar com Sally Seton!

É estranho como nada parece acontecer no dia de Clarissa, mas, ao mesmo tempo, acontecem várias coisas.

. . . 

Lucrezia Warren Smith

Outra personagem destacada é Rezia, que está passeando pela cidade com o seu marido, Septimus. Ele é  ex soldado e possui problemas psiquiátricos. Nesta época a psiquiatria era uma novidade, então, é tudo muito confuso para ela. Lucrezia tenta fazer o que o médico recomendou: quando ele começasse a se dispersar ou a falar sozinho, ela deveria chamar a atenção dele para outra coisa. Nada parece dar certo e ela se sente profundamente impotente.

Estou só, estou só! exclamou ela, junto ao chafariz no Regent’s Park (mirando a estátua do indiano com a cruz), e como talvez à meia-noite, quando se confundem todas as fronteiras, o país recobra sua forma antiga, tal como a viram os romanos e ao desembarcar ali, sob o céu nublado, os montes ainda não tinham nomes e os rios serpenteavam por regiões que ninguém mais conhecia – tal era a escuridão que ela sentia; então de repente, como se estivesse sobre uma plataforma, exclamou que era a mulher de Septimus, com quem se casara anos antes em Milão, e jamais, jamais diria que ele estava louco! Ao se virar, a plataforma desmoronou; e ela despencou sem parar, sem parar, sem parar.

Através dessa parte também podemos ver algumas críticas da Virginia em relação à psiquiatria. Existem trechos muito fortes em que ela fala sobre o “senso de proporção”, o jeito que um dos médicos denomina aquilo que seria “ser normal”.

Mas a proporção tem uma irmã, menos sorridente, mais temível, […]. Conversão é seu nome e ela se farta da vontade dos combalidos, adora impressionar, se impor, cultuando os próprios traços estampados no rosto do populacho. […] confere sua bênção àqueles que, erguendo os olhos, recolhem submissamente nos olhos dela a luz de seus próprios olhos.

. . .

Foi uma leitura que precisei ter persistência pra ler. Acho que foi o primeiro livro mais complexo que li na vida. Mas conforme as páginas vão avançando, passa a existir todo um envolvimento do leitor com a atmosfera. Quando Mrs. Dalloway sai pelas ruas de Londres, podemos nos sentir lá, caminhando com ela. A mesma coisa acontece em várias outras cenas.

Esse post foi pra encorajar vocês, basicamente. Acho que nunca falei tão superficialmente sobre algum livro, pois pra falar profundamente desse livro quase é preciso que se escreva outro livro.

Existem edições lindas, e muito em conta também. Só cuidem pra não pegar as edições traduzidas pelo Mário Quintana, pois ele modifica muita coisa do texto original. Digo isso por ter lido os meus trechos preferidos em duas traduções. Caso já tenham ela, ignorem isso e bora ler igual! 🙂

Ah, e quando sumo por aqui, continuo presente lá no insta! Sigam!


 

WhatsApp Image 2017-12-08 at 10.58.59

Com o dobro de inteligência do marido, era obrigada a ver as coisas pelos olhos de Dalloway – uma das tragédias da vida matrimonial.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *