Elena, filme e livro

Elena, filme e livro

elena livro filme petra costa (6)


Em 2013 essas propagandas chatas do youtube me levaram até o filme Elena, da Petra Costa. Lembro de ter saído do cinema sem conseguir dizer qualquer palavra sobre o filme que tinha acabado de ver. Eu o havia achado muito bom em qualidade, mas o fato de eu ter me identificado muito com a personagem suicida me aterrorizava.

Depois o bloqueio de falar sobre isso passou e assisti ao filme ainda algumas outras vezes, sentindo o mesmo choque. Sempre tive curiosidade pelo livro, mas não sabendo exatamente do que se tratava, nunca adquiri. Ganhei recentemente e vocês ficaram bem curiosos sobre o conteúdo, então vamos lá.

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Elena, o filme

elena livro filme petra costa (6)

Para quem ainda não teve oportunidade ou interesse de assistir ao longa e for assistir agora, recomendo que faça antes de fazer a leitura.

Elena era uma jovem que tinha sede de arte, de se expressar através do seu corpo atuante. Ela tinha uma ideia de arte que não conseguia alcançar na vida e nem mesmo atuando. Essa falta de alcance fez com que de uma jovem alegre e sonhadora, ela se transformasse, mesmo que ainda sonhadora, numa figura melancólica que não suportava o vazio da existência fora da arte.

O filme tem o caráter documental, conta com filmagens antigas e relatos de algumas pessoas. É narrado pela própria Petra, que tem um sotaque mineiro gostoso e conta as coisas não para nós, mas para a própria Elena.

É um filme realmente dilacerante em cada uma das partes. Mas acredito que também é necessário, por vários motivos os quais o livro ilustra.

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Elena, o livro

 

elena livro filme petra costa (6)O livro é constituído dos olhares das pessoas sobre o filme, de fotografias,  de uma entrevista com a Petra e do roteiro do longa. Isso quer dizer que: ele não conta a história de Elena novamente, mas faz com que a reinterpretemos de diversos modos.

A introdução fala sobre a importância do filme, e sintetiza bastante aquilo que não conseguimos explicar sobre ele quando vamos indicar pra alguém, por exemplo.

Elena é um filme assim. No centro, o evento trágico de uma vida interrompida cedo demais. Os vivos se despedaçam. O filme reintegra os pedaços, na medida em que isso é possível, ou seja, imperfeitamente. Não existe a ingenuidade de achar que a arte recupera a plenitude anterior ao drama. É ao contrario, creio. Através do filme, o que se tenta é encontrar um modo de concilia-se com a irrevogabilidade da morte, aprendendo a viver com o que fará falta para sempre.

João Moreira Salles

A questão da mulher também é bem valorizada, vista algumas vezes pelo viés da psicanálise. Sobre como Elena pode ser vista não apenas como alguém com depressão, mas de uma maneira universal, representando as dificuldades que as mulheres têm de passar de uma fase para a outra. De tornar-se, de fato, adulta.

Elena é uma Ofélia, pensa Petra. Ofélia, a noiva de Hamlet que se suicida na peça de Shakespeare. Ela, Petra, também é uma Ofélia. São muitas as Ofélias que andam por aí nas ruas deste mundo, acredita Petra. Meninas que no vir a ser mulher se afogam no rio de desejos e sensações, de excessos do sentir e do querer. Jovens que submergem nesse feminino perturbador sem jamais conseguir voltar à superfície.

Eliane Brum

O texto da Ivana Bentes talvez tenha sido o meu preferido. Ela se aprofundou em várias questões muito diferentes umas das outras, vários pensamentos que passam por nós como nuvens enquanto vemos o filme, mas que não conseguimos transformar em algo verbal ou num pensamento concreto e elaborado.

Ela entra na questão da estética da arte. Diz que a ideia que Elena fazia da arte foi o que fez com que ela adoecesse aos poucos. E novamente Elena é universalizada, é vista como algo presente dentro de nós.

Vindo para a discussão da proposta da estética e da arte na sua relação com o social, algumas questões me inquietaram. Elena se mostra na sua singularidade, apostado filme como redenção, resgate de uma vida. Ao mesmo tempo, surge como uma adolescente absolutamente comum e próxima de centenas e milhares de meninas, adolescentes e jovens que buscam se expressar de alguma forma, que não encontram um “ponto de existência” e sofrem. Nesse sentido, o peso da palavra “arte” pesa demais na curta trajetória de Elena, algo como “ou eu me expresso a partir da minha arte ou eu prefiro morrer”.

Ela fala também sobre o protagonismo das mulheres e na ausência das personagens masculinas. Pois ela era uma menina em NY por dentro de várias atividades e provavelmente tinha um caso ou algo assim. Mas nó nunca saberemos disso, porque, como raramente acontece nos filmes, isso foi ignorado por simplesmente não importar.

Há uma entrevista de com Petra em que o que mais me chamou a atenção foi que ela não conhecia as imagens antes de fazer o filme. A Elena viva era para ela alguém muito distante, apesar de conviver constantemente com Elena morta. Ela coletou muito material que não foi usado, e diz ter ganhado uma irmã para perder depois.

Existem MUITOS textos bons no livro. Esses são só os primeiros que mostraram para o que ele veio. O roteiro,  o que eu mais valorizava antes de fazer a leitura, acabou se tornando coadjuvante.


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Espero ter tirado um pouco a curiosidade de vocês a respeito do assunto sem ter entregado tudo de bandeja! 🙂 A editora Arquipélago caprichou na edição, é um livro desses que dá vontade de ter nas mãos e depois na prateleira.

Até a próxima visita! 🙂

 

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