A Desumanização, Valter Hugo Mãe

A Desumanização, Valter Hugo Mãe

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A Desumanização, do Valter Hugo Mãe, acabou de se tornar um dos melhores livros que já li – pra não dizer uma das melhores experiências que já tive. Fiquei um pouco confusa pra escolher qual aspecto dele eu deveria priorizar na resenha, pois é impossível falar de tudo. Marquei muitos fragmentos que amei, mas, como tem bastante spoiler, vou postar apenas se vocês pedirem. É só pedir que a tia posta.

Vamos lá.

Uma ilha árida, praia, abismos, um clima meio camponês com ovelhas no pasto e missas na igreja: tudo isso faz parte do universo da pequena Halla. Ela tem 12 anos quando sua irmã gêmea morre e,  então, ela narra com riquíssimos detalhes como é viver se sentindo metade-metade com a morte.  A  narrativa, por ser do ponto de vista de uma criança, é rica em descrições poéticas e definições peculiares acerca do mundo. O texto se constrói a partir de várias palavras e expressões inventadas pela própria menina, que fala a maior parte do tempo sobre a vida, a morte, deus e sobre o uso das palavras.

Foram dizer-me que a plantavam. Havia de nascer outra vez, igual a uma semente atirada àquele bocado muito guardado de terra. A morte das crianças é assim, disse a minha mãe. […] As pessoas já chamavam àquele bocado de chão a criança plantada. Diziam assim. A criança plantada. Também parecia uma chacota porque o tempo passava e não germinava nada, não germinava ninguém.

Quando ela relembra os diálogos e as brincadeiras com a irmã, faz-nos mergulhar em uma grande nostalgia melancólica da infância. Temos cenas na praia, sonhos com príncipes, tranças ao vento. O Valter Hugo Mãe soube explorar as paisagens islandesas de modo que elas contribuíssem muito nas sensações causadas no leitor. Essas lembranças também são origem de algumas expressões usadas o tempo inteiro, como, por exemplo, quando sua irmã diz que  queria ser longe, e que morrer deveria ser como ir para as costas dos olhos.

Essa linguagem doce entra em contraste com a vida dura que a menina passa a ter. A mãe das gêmeas começa a ter um comportamento agressivo causado por depressão. As pessoas da cidade chamam as meninas de a mais morta e a menos morta. O pai lhe ensina sobre sonhos e palavras, mas não oferece nenhuma segurança concreta. Existe um homem mais velho chamado Einar, em quem Halla consegue pousar com um pouco de segurança (no ponto de vista dela), porém essa relação causa muitos problemas.

O medo fez aparecer nos meus sonhos um pequeno monstro branco, peludo, o nariz comprido a arrastar pelo chão. Dizia-me sempre a mesma coisa: vim ensinar-te o essencial sobre a tristeza. Era um pequeno monstro como um brinquedo de aconchegar, um monstro de brincar. Tinha os olhos carregados de lágrimas e o susto que dava era só esse, o de ternamente impedir a felicidade.

A personagem amadurece na medida em que se afasta da ausência da irmã, mas temos aqui uma maturidade exigida e forçada, não vinda com naturalidade. Algumas partes são realmente muito chocantes e indigestas de ler, pois temos uma criança contando coisas que deveriam ser estritamente adultas – e aqui temos GATILHOS de diversos tipos.

Ao longo do livro há, também, muita reflexão sobre literatura e sobre a função das palavras. As palavras seriam uma forma de transformar coisas ausentes em coisas presentes? Ou elas nos reduzem a seres que ficam a dizer coisas que existem para muito além das palavras? Halla muda sua opinião sobre isso de acordo as mudanças de sua vida.

O que digo só é bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar, pai. Preciso aprender a calar-me. Quero muito fugir.

O texto ficou super longo, mas isso tudo que eu disse são apenas as coisas que mais me chamaram atenção. A leitura tem muito conteúdo, eu marquei quase o livro inteiro e fiquei pobre de post it! hehehe. Vou deixar pra vocês uma foto de duas ilustrações lindas do livro, com um excerto em que Halla parece estar descrevendo a história que ela própria narra:


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Os livros podiam ser atentos ou desatentos ao modo como contavam. Nós, inspecionando muito rigorosamente, achávamos melhores aqueles que falavam como se inventassem modos de falar. Para percebermos melhor o que, afinal, era reconhecido mas nunca fora dito antes. Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-na pela primeira vez como se nascessem. Ideias que nasciam para caberem nos lugares obscuros da nossa existência. Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça.

 

 

 


Comentem o que acharam do livro no instagram, eu estou sempre por lá.  Na próxima visita a tia vai trazer quadrinho! 🙂

 

 

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