Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

Caderno de um ausente, joão anzanello carrascoza


Escrevendo para o blog, percebi que os livros de que mais gosto são aqueles que me surpreendem, que pego para ler sem muita expectativa e acabam se mostrando incríveis de um jeito que eu não imaginava. Com Caderno de um ausente, do João Anzanello Carrascoza, não foi diferente.

O que eu sabia sobre ele me fez esperar pouco. Eu pensava que um pai escrevendo um livro para a filha recém-nascida poderia ser no máximo “bonitinho”.  Um homem tem uma filha aos cinquenta anos de idade e, tomado pela consciência de que não vai ver o seu crescimento completo, passa a escrever a obra. Eu realmente não imaginava que ele fugiria daquele estereotipado pai-babão-deixando- legados-pro-futuro.


Ainda hoje, provavelmente de madrugada, após o sono inaugural fora de tua redoma, acordarás com fome e compreenderás que não estás conosco no paraíso, e, então, vão te trazer a este quarto e te entregar à tua mãe, e só depois que tu e ela conseguirem se encaixar, a água salgada na face de ambas, a tua boca finalmente a sugar o seio dela, a tua cruz se tornará leve por um instante, e seguirás, assim, pela vida afora, em busca de experimentar novamente esse êxtase.

Bem diferente disso, temos aqui um pai que não enfeita a realidade, que não tenta pintar para Beatriz um destino único e especial. Pelo contrário, ele passa a sensação de estar sendo obrigado a dizer coisas muito duras para ensinar a ela sobre a realidade.  Ele aceita e adverte que a vida será com sua filha como a vida é com todos os outros, e que ela será uma pessoa como todas as outras são. Essa foi, na verdade, a leitura mais melancólica que fiz esse ano.

Em algum momento da narrativa, passamos a nos sentir Beatriz. Enquanto ele fala com ela sobre as possibilidades, enxergamos tais possibilidades como nossas próprias experiências, e parece que João Anzenello Carrascoza está falando conosco.

[…] na certa te sentes exilada e, talvez, como muitos de nós, continuarás por muitos anos, senão para sempre, a te sentir assim, imprópria pra este mundo, transplantada pra um terreno que muda de estação pelo teu olhar mais do que pelas formas que o determinam, porque, às vezes, há mais seca numa inundação do que num deserto, mais verão numa folha do que num bosque inteiro.

 


Outra coisa que achei interessante, é que o autor trabalha muito com o silêncio.  Tive um professor de literatura que estava sempre repetindo coisas sobre como o silêncio é importante. Ele é aquela parte que  não é escrita pelo escritor, é quando o autor cala, é o espaço dado para que o leitor escreva em sua própria mente a coisa lida. Caderno de um ausente possui a representação gráfica desse silêncio. O texto é entrecortado por várias lacunas dele, que parecem vir sempre na hora apropriada.

[…] porque nada explica a tão curta e dolorida jornada, e de nada adiantaria se algo explicasse, pois mesmo o muito é sempre pouco, _____ porque não há ninguém que não anseie, ao menos por um minuto, ser outro, _____ porque quanto mais o corpo cede mais a alma pede, […] porque não cabe tudo na palavra “tudo”.


 

Alguns fragmentos

Caderno de um ausente joão anzanello carrascoza quote
Foto autoral

[…] a pele não é profundidade mas extensão, a pele não é como o mar, sem margem, os lados indefinidos – o mar é mais mar onde só alcançam os escafandristas, quanto mais dentro dele mais o mar é o que é; mas a pele, não, se mergulhamos na pele, Bia, encontramos o que ela já não é, carne e músculo e sangue e osso […]

 

Ninguém pode ouvir a última batida do próprio coração, só a dos outros, aprendi naquela noite com ela, embora tenha demorado até agora pra me dar conta de tal lição, e esta nossa impossibilidade,  Bia, de fazer coincidir o que somos com o que seremos, o minuto-pré com o minuto-pós, resume e diz tudo, absolutamente tudo, sobre a nossa condição.

 

[…] porque as palavras dizem também outras coisas quando enunciam o que enunciam, Bia, ____ “eu te amo” nem sempre é um incêndio, infinitas veze é monotonia […]

 

[…] e eis aqui, Bia, uma foto do teu irmão vestido de Batmam, veja, ao fundo, a luz solar, tão fúlgida, teu irmão, aos sete anos, num daqueles momentos em que uma vida, então de extraordinárias descobertas, atinge o último céu, sem perceber a tempestade se armando atrás de si, o teu irmão na graça de um instante, a provar este gosto infinito, que às vezes ainda me convulsiona, este gosto infinito que é viver.

 

[…] em breve, filha, os teus progressos não serão mais anotados no papel.


Trilogia do Adeus

 

Essa edição faz parte da Trilogia do Adeus, um box muito fofo da Alfaguara que, além desse, possui outros dois livros que parecem muito bons e estou ansiosa para ler. Um deles é narrado pela própria Beatriz <3.

Claro que quando realizar a leitura a tia vai vir mostrar pra vocês! 🙂

Até a próxima visita! 🙂

 

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