A noite das mulheres cantoras, Lídia Jorge

A noite das mulheres cantoras, Lídia Jorge

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 No verão desse ano, levei uma série de livros pra  praia e, entre eles, estavam os que comprei pro vestibular da UFRGS. Pensei que acabaria não lendo nenhum, porque a gente sempre fica meio ressabiado com essas coisas de vestibular, né? Mesmo ouvindo dizer que é bom, fica aquela coisa-meio-prova.

Fui pesquisar sobre o livro A noite das mulheres cantoras, da Lídia Jorge, e li o nome Gisela Batista. Fiquei impressionada com como  o cuidado do escritor com a escolha do nome de uma personagem pode despertar a curiosidade da gente. Gisela Batista. Quando li que o enredo se tratava das escolhas e dos limites para alcançar um objetivo, tive certeza de que seria ela quem transcenderia esses limites. Vou tentar dizer as coisas que me tocaram no livro sem dar muito spoiler.

A narradora é Solange de Matos que, na platéia de um espetáculo de verão, chamado por ela de noite perfeita, é exposta a muitos elementos de seu passado. A maestrina, Gisela Batista, aparece no palco cantando uma música  que foi sucesso de um quinteto do qual ambas participaram na juventude. A partir da descrição desse espaço, a narradora já mostra o que acontecerá pelo resto do livro: conseguiremos enxergar todo o glamour e quase ouvir todas as músicas.

Também podemos ver muito de Gisela.

“E Gisela Batista, naquela noite de Verão, em vez de falar de si mesma, como seria de se esperar, preferiu invocar um a um, o nome de suas companheiras, apresentando-nos como um grupo sem mácula, elevando-nos a todas à categoria de boa gente, fazendo sua pessoa dissipar-se no interior do conjunto, uma espécie de modéstia orgulhosa que agradava imensamente o público”.

Espertinha ela, né???

As meninas acabam subindo ao palco e, depois de muitas “cenas” glamourosas, a única participante ausente do quinteto tem seu nome citado pela estrela do espetáculo. Madalena Micaia era a grande voz do grupo, mas não está lá.  Esta é uma ponta solta que nos instiga a continuidade da leitura, pois, embora Gisela se dirija às câmeras como se esta participante lhes estivesse  assistindo de  alguma superfície da terra redonda, a narradora garante que Madalena não estaria nunca mais sobre essa superfície terrestre – e que elas quatro sabiam disso de uma mesma maneira.

Fala-se também de um tal de João de Lucena, que não sabemos quem é, mas que dança com a narradora Solange enquanto os dois são aplaudidos.

É contada, então, a história que levou Solange até ali. Ela era uma menina bem resignada até certo ponto do enredo. Conta-nos de um regresso de sua terra natal, na África, até Portugal, na guerra colonial portuguesa. Fora criada em campos de chá, e esse deslocamento parece atingir muito a vida emocional da personagem. Solange me passou a impressão de estar sempre buscando algum lugar, alguma coisa com a qual ela pudesse se identificar.


“Também morava uma espécie de cautela, uma lentidão qualquer, a ensinadela demasiado temporã de que a vida é levada por dois carros e um deles não o conduzimos nós. Um cocheiro encapotado leva metade da nossa vida por onde ele próprio entende. Soubera-o demasiado cedo. Essa reserva dividia-me em duas, e uma parte vigiava a outra, puxada por dois cocheiros adversos. Um deles proibia-me de falar desse passado.”


Eu já vou parar de dar spoiler, ta??? Isso é apenas o começo do livro.

Quero só dizer que a narradora parece, muitas vezes, com uma pessoa que sabe bem de si mesma e que não se deixa levar, mesmo sendo perdida. Porém, quando as duas irmãs participantes do quinteto convidam-na para entrar no grupo e escrever  letras para ele, Solange aceita o convite, primeiro, para contrariar uma personagem moralista que fica dizendo o que ela tem de fazer ou deixar de fazer . Depois,  porque está dominada pela influência que Gisela Batista causa nela (e aparentemente em todo mundo).

Gisela é mais velha, tem sede de fama e quer fazer música para ser ouvida e também vista. Ela detém a imagem forte, a experiência, o foco no objetivo, as fontes para o negócio e o poder financeiro. Só que ela não tem a voz. Pra mim, ela precisa da liderança justamente porque não tem a voz. Ela usa dos artifícios da influência para conseguir o quer.

No primeiro encontro dela com Solange, Solange diz que da vida não quer nada. Gisela dispara:

“Ambiciosa, quem nada quer, tudo quer. Queres uma coisa que não é deste mundo, não é verdade?”

E, assim, direciona a vontade de Solange à vontade dela própria. Passamos a assistir aos ensaios do quinteto e, embora essa seja uma jornada na busca pela fama, o livro diz muito mais sobre o caráter e a personalidade das pessoas.

As outras personagens do quinteto são as irmãs, que também se submetem a essa liderança, e Madalena Micaia, uma mulher de personalidade forte que entra em alguns embates com Gisela. Outra personagem fundamental é o coreógrafo João de Lucena que, não sei por que, não me chamou muito a atenção. Parece fazer alvoroço nos leitores mais por ser um par romântico do que por sua personalidade em si.

 Eu amei esse livro em muitos aspectos, mas vou parar por aqui, se não escrevo até amanhã. Eu, pessoalmente, gosto muuuito desse tipo de ordem temporal na narrativa em que a gente vai descobrindo as respostas aos pouquinhos. Acho que vocês vão gostar também!  Se vocês já leram ou pretendem ler, me contem o que acharam aqui ou lá no insta . Contem também o que vocês gostam de ler e assistir, pois sou curiosa e adoro conhecer coisas!


Vou deixar aqui as partes que juntei de uma letra do quinteto:

Não tem quem quer, tem quem pode

Uma casinha portuguesa em Nova Iorque.

Oh! Não tem, não tem!

Aquela casa com que tu

Sonhaste um dia

Cheia de rosas, café e maresia

Existe, existe

Levaste para lá a casa portuguesa

E colocaste-a no meio da avenida

Onde tu vives, dormes

Fazes arte, ressuscitas, morres

Todos os dias.

[…]”


Até a próxima visita!

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